Elas empreenderam para dar voz aos direitos das mulheres

Isso me Inspira  /   / Por Aline Mello  /  Por
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Quando entraram na Faculdade de Direito da USP, um mundo de novas ideias se abriu para Ana Paula Braga e Marina Ruzzi. Muito mais do que aprender sobre leis e decretos, o ambiente da universidade despertou nelas o questionamento sobre suas antigas verdades, assim como faz com tantas outras pessoas. E essa atmosfera de movimentos e militância fez com que elas abraçassem o feminismo. As duas colegas de curso, que na época eram só conhecidas de corredor, pouco imaginavam que a causa que as unia culminaria na abertura do primeiro escritório de advocacia do Brasil especializado em direitos das mulheres e desigualdade de gênero, o Braga & Ruzzi.

“Não imaginava trabalhar com direitos sociais”, conta Ana, que se formou com o plano de prestar concurso. Mas, para isso, ela precisaria ter no mínimo três anos de prática, o que levou a empreendedora a advogar sozinha. “Comecei a atender muitas mulheres que chegavam com solicitações nos grupos feministas do Facebook, e pensei que eu poderia unir minha militância com a advocacia”, afirma. Quando percebeu que não existiam escritórios que atendiam a todas as demandas crescentes que surgiam entre as mulheres, Ana começou a articular ideias com uma colega, que paralelamente já conversava sobre isso com Marina. A amiga em comum acabou desistindo, mas as duas seguiram em frente com o plano e começaram a estruturar o Braga & Ruzzi logo no começo de 2016.

“Criamos uma área de atuação que não existia.”

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No início, mesmo colegas e familiares não levaram muita fé no projeto das advogadas. “Eles diziam que não daria certo unir uma causa com trabalho”. Havia também o desafio de criar um novo modelo de escritório de advocacia, que englobasse diferentes tipos de serviços que as mulheres precisam. “O direito é muito voltado em caixinhas. Você se especializa em uma área só – trabalhista, criminal, civil. Mas nós entendemos que as questões de gênero perpassam por todas essas áreas”, explica Ana. Assim, as empreendedoras abriram um escritório multidisciplinar, e defendem clientes em causas civis, familiares, trabalhistas, administrativas e previdenciárias, penais e que envolvem direitos sexuais, reprodutivos e de maternidade.

Além do desafio de criar um modelo de escritório diferente, as duas advogadas tiveram que aprender na prática a rotina do empreendedorismo. “A faculdade de direito não forma os alunos para empreender”, afirma a empreendedora, “na carreira tradicional você estagia num escritório, é efetivado e vai crescendo lá dentro até virar sócio”. De repente, as duas advogadas recém-formadas, na época com 24 anos, perceberam que também precisavam ser outras mil coisas: administradoras, contadoras, publicitárias. Mas elas logo aprenderam uma grande lição: não existe marketing melhor que preencher uma lacuna que o mercado precisava atender.

“Foi muito surpreendente porque nós só criamos uma página no Facebook, e as pessoas já foram compartilhando e nos procurando”, lembra Ana. Em pouco mais de um ano e meio, as jovens já acumularam muitas clientes satisfeitas, uma consequência direta do atendimento diferenciado que elas se propõem a fazer. “A gente traz mais empatia. Fazemos elas se sentirem acolhidas para conseguirem se abrir conosco”, conta a empreendedora, ao explicar que no atendimento, o Braga & Ruzzi passa longe da linguagem técnica e rebuscada que é a norma nos escritórios tradicionais de advocacia.

“O Direito ainda precisa evoluir muito. Nossas particularidades enquanto mulheres não são consideradas.”

Enquanto o novo modelo é bem recebido pelas clientes, Ana conta que elas ainda encontram barreiras na justiça. “A sociedade está evoluindo, mas as leis não acompanham esse processo”, explica. Um exemplo disso é o caso recente da Lei da Advogada Gestante, que só foi aprovada depois que uma advogada entrou em trabalho de parto no Superior Tribunal Federal após seus colegas não aceitarem que ela passasse na frente da pauta do STF – um processo que pode envolver uma espera de dia inteiro, e muitas vezes é enfrentado de pé.

É por essas e outras situações que Ana ressalta a importância de datas simbólicas como o Dia da Mulher Operadora de Direito, comemorado no dia 15 de dezembro. “Se a gente for olhar os números, as mulheres são maioria nas aprovações da OAB”, afirma a empreendedora, “o mercado precisa entender que estamos ocupando os mesmos espaços profissionais que os homens, e que podemos e devemos competir de igual para igual”.

A dupla de advogadas certamente está lutando pelo seu espaço, e com sucesso, já com planos de aumentar a equipe em breve. E os objetivos antigos de prestar concurso ficaram há muito para trás: “Eu me encontrei nesse caminho, me realizei profissionalmente”, conta Ana, que provou que unir uma causa com um trabalho na verdade pode dar muito certo.

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