Isso me Inspira: devolvendo a cidade para os deficientes visuais

Isso me Inspira  /   / Por Pedro Antunes  /  Por
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O dia de trabalho ou de estudos de uma pessoa envolve locomoção durante o dia, seja pegando metrô, ônibus ou carro. Mas como será a rotina de uma pessoa com deficiência visual? É difícil parar para pensar no assunto quando não temos alguém na família ou algum conhecido que passe por isso. Quando cursava o ensino médio técnico em TI, Deborah de Angelo, na época com 17 anos, tinha um colega de escola que era cego e foi a partir do contato com ele que o empreendedorismo entrou em sua vida.

Todos os dias, Deborah demorava 1h30 para ir de casa à escola e, quando perguntou para seu colega como era a sua rotina, descobriu que o trajeto para ele era duas vezes mais demorado. Chocada, a estudante comentou com outra colega de turma, Bianca Caravajo, e as duas decidiram que deviam fazer algo para tentar mudar essa realidade. Foi assim que, em 2015, começou a nascer a Sonya, uma ferramenta gratuita para pessoas com deficiência visual.

Empreendedorismo na sala de aula

As duas estudantes resolveram criar um aplicativo que ajudaria pessoas com deficiência visual a se locomoverem pela cidade com mais rapidez e segurança. “Criamos o projeto em época de TCC e participamos do Technovation Challenge, competição de tecnologia e empreendedorismo para meninas”, conta. O projeto ficou em 3º lugar na competição e, no ano seguinte, as amigas levaram a ideia para a Incubação Pense Grande, da Fundação Telefônica, onde tudo começou a sair do papel.

Em maio, a Sonya ficou em 3º lugar no prêmio Mulheres Seguras do LinkedIn. Mas, para chegar nesta etapa, o aplicativo passou por algumas mudanças. “Nós tínhamos a Evo, que era uma desenvolvedora de softwares acessíveis, e o Sonar, que era o app. Mas isso incomodava as pessoas, que se confundiam e não sabiam qual era qual”, relembra Deborah. As jovens empreendedoras descobriram também que o nome Sonar já estava sendo usado. O novo nome Sonya, que é uma derivação de sonar e significa sabedoria, surgiu com a ajuda de uma empresa de branding, que trabalhou o nome e a marca do aplicativo de forma voluntária.

“É muito bom fazer o que a gente ama”

De acordo com a Deborah, o app ainda está passando por testes, processo que terá duas fases. A primeira é para a definição de rotas por voluntários com deficiência visual. Esses voluntários passam por trajetos que já conhecem, escutam as coordenadas do aplicativo e confirmam o que está certo e o que precisa ser alterado. Na segunda, as meninas pré-definem rotas e os deficientes visuais, acompanhados por voluntários, fazem o trajeto para ver se funcionam.

O processo é trabalhoso e, para uma empresa social, é mais difícil. “Tivemos que conseguir renda, porque a gente não queria cobrar do usuário. Outro obstáculo é que não tínhamos rendimento com o negócio, um valor nosso, e assim é difícil de se manter”, explica. Mas para as sócias, o ânimo para seguir em frente vem do feedback dos beta testers. “Eles são muito atenciosos e próximos, renovam a nossa energia”, comenta.

Mas, afinal, como o aplicativo funciona?

Todo o smartphone tem um sistema de leitor de tela, para acessibilidade. Quando os usuários ativam a Sonya, ela traça as rotas e dá as coordenadas por voz, como um GPS. E para que tudo funcione direitinho, as sócias dividem todo o trabalho. “A Bianca fica focada em toda a programação e me passa tudo que está acontecendo. Eu cuido da área administrativa e do marketing e comunicação”, explica Deborah.

“Todo mundo pode empreender”

A empreendedora conta que, por serem duas jovens – ambas têm 19 anos – no setor de tecnologia, nem sempre são bem recebidas. “Tem dois extremos: ou as pessoas recebem bem, ou olham com aquela cara de quem diz ‘olha a idade de você'”, conta. Normalmente, outras mulheres são mais receptivas, mas, infelizmente a grande maioria dos participantes de eventos de tecnologia ainda é formada por homens. “Mas está melhorando, a gente tem encontrado muitas mulheres”, diz, esperançosa.

Depois de ganharem o prêmio Mulheres Seguros com a Sonya, Deborah e Bianca pretendem lançar o aplicativo ainda em julho. “Agora vamos trabalhar a marca e seu desenvolvimento para lançar o app”. E para quem ainda está na dúvida sobre empreender, ela dá o recado: “Existem milhares de programas de incubação, aceleração e incentivos para a pessoa empreender com o que ela sonhar em fazer”.

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