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Foto: Victor Ghiorzi

Em fevereiro de 2010, Leila Ghiorzi pegou carona de Porto Alegre (RS), sua cidade, até a praia de Ibiraquera (SC), em um carro que só tinha amigos homens. Eles passaram a viagem de quatro horas e meia falando sobre dinheiro. A única mulher do grupo chegou na praia com uma certeza preocupante: isso não teria acontecido se o carro só tivesse meninas. E essa constatação lhe deu um propósito. Hoje, Leila, 30 anos, é dona do É da Minha Conta, e ajuda mulheres de todo o Brasil a conquistarem a independência financeira.

A constatação aconteceu na estrada para a praia, mas essa história começou muito antes. Filha de mãe bancária, aos 12 anos Leila já tinha conta no banco, e, desde os 15, desenvolveu uma paixão pelas finanças. Foi o que a levou a considerar ser jornalista econômica durante a Faculdade de Comunicação. Mas seus olhos brilhavam mesmo quando tinha a oportunidade de ajudar os outros a cuidarem do seu dinheiro. “Muitas pessoas me pediam ajuda com assuntos financeiros porque eu fazia planilhas e conseguia fazer meu dinheiro durar muito tempo”, conta.

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“Nós, mulheres, não falamos sobre dinheiro porque não somos estimuladas a isso.”

O primeiro passo foi dado em outubro de 2016, no trabalho de conclusão de curso de Design Instrucional, área de trabalho que a empreendedora ainda concilia com o negócio próprio. Leila uniu o amor que tinha pelas finanças à sua militância no feminismo e criou o site É da Minha Conta, com o o curso online Conquiste Protagonismo: Finanças para Mulheres, que está no ar até hoje. Aos poucos, o projeto cresceu: promove oficinas que funcionam como pequenos cursos para empresas ou pessoas físicas, além do coaching financeiro, carro-chefe da empresa. “O coaching tem cinco meses de treinamento, divididos em 10 sessões. Esse é o produto mais transformador para a cliente”, conta ela.

A primeira cliente que testou o produto foi Lenise Ghiorzi, sua irmã, e hoje, sócia. “Para mim, a maior descoberta do coaching foi que eu poderia, sim, fazer o que eu quisesse com meu dinheiro. Eu só precisava fazer escolhas”, conta ela. Para as meninas, lidar com dinheiro é muito mais do que matemática: é um hábito. “Nós temos muitas crenças limitantes, construções prontas que nos impedem de fazer certas coisas. Por exemplo, até que ponto você quer comprar um carro, ou isso foi uma vontade construída pela sociedade?”, questiona. É esse tipo de conversa franca que a coaching tem com suas clientes, e, quanto mais ela trabalha, mais tem certeza de que as mulheres querem muito falar sobre dinheiro, elas só não têm um espaço para isso. “Nós temos vergonha de falar sobre finanças com os homens”.

“O empoderamento feminino passa também pela questão da independência financeira.”

Feministas, as sócias do É da Minha Conta defendem a importância da independência financeira para a mulher, especialmente na realidade atual em que cada vez mais elas assumem o papel de chefes de família. Esse propósito motivou elas a transformarem a empresa em um modelo de negócios social, reinvestindo parte dos lucros para causas em que acreditam.

A paixão pelo faz é o segredo do sucesso do negócio de Leila. “Eu não esperava crescer num ritmo tão acelerado”. Foi isso que acabou trazendo, em 2017, as duas sócias, fãs e parceiras do projeto. Além da irmã, que é responsável pela área pedagógica do negócio, ela conta com o apoio da amiga Camila Pozza, que coordena o Marketing. A parceria só deu certo por que as três se complementam: “Temos perfis muito complementares. Não adiantava ter mais uma pessoa igual a mim”, analisa.

casa

Mas Lenise acrescenta: “demorou para alcançarmos a maturidade que temos hoje”. Todas as sócias têm empregos em paralelo e atuam no negócio em horários alternativos. “Nós descobrimos a importância de definir processos. Hoje fazemos uma reunião por semana e todo mundo anota a tarefa de todo mundo, para nada ficar perdido”, conta Leila.

Apesar dos desafios, o trio de empreendedoras de primeira viagem aprendeu que quando se acredita no que se faz, as coisas acontecem. “Às vezes, não tem chão e vamos assim mesmo. E, no fim, tudo dá certo”, brinca a fundadora, que tem planos de focar sua carreira somente no negócio próprio no futuro. Mas, para isso, sabe que pode contar sempre com coletivos e com outras empreendedoras, um aprendizado valioso que o projeto lhe proporcionou. “Precisamos parar com essa ideia de que as mulheres são concorrentes. Tem muita gente querendo se ajudar”, conclui Lenise.

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