Os desafios de ser mulher e empreendedora no Brasil

Eu sei / Eu sou  /   / Por Aline Mello  /  Por
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Cada vez mais mulheres estão seguindo o sonho de começar o próprio negócio. Dados do SEBRAE mostram que mais da metade dos novos empreendedores no Brasil são mulheres. Apesar de estarmos tão presentes no mercado, e sermos mais de 50% das pessoas com ensino superior, ainda encontramos mais dificuldades para crescer no mercado do que os homens: somente uma a cada quatro empreendedoras no Brasil tem uma empresa com receita bruta maior que R$ 30 mil mensais. Para entender o que está por trás desses números, o Mulheres Seguras conversou com Renata Moraes, fundadora da Impulso Beta.

Foi a insatisfação com a falta de oportunidades iguais para homens e mulheres no mercado que fez Renata criar sua própria empresa. A empreendedora trabalhava em uma fundação que ajuda jovens a se tornarem futuros líderes, e achava frustrante ver que a visibilidade dos ex-alunos homens era muito maior que das mulheres. A própria Renata, que tinha um cargo de gestão na fundação, via em sua carreira as dificuldades que mulheres em cargos de liderança enfrentam: “Olhava para o lado e meus chefes eram homens, meus pares eram homens”, conta ela, “eu sentia os primeiros desafios que uma mulher que almeja uma carreira executiva sente”.

Com a vontade de criar algo novo, Renata fundou a Impulso Beta, uma empresa focada no avanço feminino no mercado de trabalho. Há quase dois anos, Renata e a sua sócia, Daniele Botaro, promovem a diversidade de gênero no mercado através de treinamentos e cursos.

“Antigamente, quando a mulher podia escolher, ela não trabalhava. Hoje a carreira é uma fonte de identidade pessoal para ela, mas essa noção é muito recente.”

Por que ainda não temos oportunidades iguais no mercado? Para Renata, isso acontece por uma soma de diferentes questões de cunho cultural. Ainda existem muitos preconceitos que influenciam as decisões de líderes de grandes empresas e as próprias mulheres. “A sociedade olha para as mulheres com ressalva, e as mulheres se veem de maneira limitada, sentindo que precisam escolher, por exemplo, entre ser mãe ou ser uma profissional de sucesso”, afirma ela.

“Temos uma série de barreiras, algumas sutis, e outras óbvias, como a não-divisão de tarefas domésticas”, explica Renata, que relembra o dado de que, enquanto as mulheres fazem em média 26 horas de trabalho doméstico por semana, os homens fazem dez. Já exploramos aqui algumas dessas barreiras nesse texto. Juntam-se a isso construções sociais como a de que os homens são melhores líderes por terem mais “pulso firme”. “Nem toda mulher é sensível, e não existe uma só maneira de ser líder”, argumenta a empreendedora.

Investir no próprio negócio, é, muitas vezes, uma forma de escapar de organizações tradicionais que tem esses preconceitos mais intrínsecos em sua cultura, mas as empreendedoras também encontram desafios. “Apesar de serem muitas, as mulheres empreendedoras são minoria entre os grandes empresários”, afirma Renata. Donas do próprio negócio têm mais dificuldades para conseguir acesso a crédito ou a redes de fomento, e para fazer networking, como já dissemos aqui no Mulheres Seguras.

“As mulheres enfrentam, sim, desafios diferentes. Ter consciência disso nos empodera.”

O problema dessas barreiras sociais fica maior quando a mulher passa a se cobrar mais do que devia, e associa suas dificuldades à falta de competência. “A meritocracia pura, em que o melhor vence, não existe. Homens e mulheres são julgados por lentes diferentes”, afirma Renata. É por isso que é muito importante se policiar para não cair em uma maré de baixa auto-estima. É preciso se questionar: “Será que eu não estou abrindo mão de ter aspirações maiores? Estou me impondo em um ambiente mais masculino? Será que estou sendo tratada da maneira correta?”, aconselha a empreendedora.

O lado bom disso tudo é que as mulheres que vivem no mundo empreendedor têm, aos poucos, se apoiado cada vez mais. Grupos de fomento e colaboração como o Mulheres Investidoras Anjo e o Rede Mulher Empreendedora surgem como resposta ao cenário de desafios que a mulher encontra no mercado de trabalho.

“Empreender é um grande desafio emocional. Precisa de muito preparo e maturidade.”

Além de todas essas dificuldades, quem decide começar a própria empresa precisa enfrentar todos os outros desafios pelos quais todo empreendedor passa. “De maneira geral, todo mundo tem dificuldade em descobrir como ganhar dinheiro”, comenta Renata, que afirma que muita gente que procura a Impulso Beta tem uma habilidade técnica, mas não sabe gerir um negócio. A isso, se soma a exigência emocional que está atrelada ao empreendedorismo. “Muitas vezes você já tinha uma identidade profissional ligada à marca de uma empresa, há anos você não fazia nada operacional, e de repente tem que construir tudo do zero”, explica a empreendedora.

É por isso que ela diz que empreender não é para todo mundo. É preciso ter tolerância a risco, ter disciplina para se autogerir e ter muita motivação. O desafio é grande, mas se existe a vontade de deixar sua marca no mundo e criar algo novo, a mesma que Renata tinha quando deixou o emprego para se aventurar no próprio negócio e criar a Impulso Beta, o que você tem a perder?

 

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