“Quero mostrar para o mundo do que as mulheres são capazes”

Eu sei / Eu sou  /   / Por Aline Mello  /  Por
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A história da Maíra Liguori com o feminismo começou como a da maioria das mulheres: com um desconforto. Criada por uma família de mulheres fortes, quando pequena ela não entendia por que alguns padrões regiam a sociedade. Até que, mais tarde, passou a ler mais sobre o assunto e reconhecer  o mesmo incômodo  que sentia ao longo da vida na história de outras mulheres. Hoje, aos 37 anos, é Diretora de Inovação na Think Olga, principal ONG de empoderamento feminino do Brasil e cofundadora da Think Eva, que ajuda empresas a se comunicarem com as mulheres de forma humana e responsável.

Durante muitos anos, a empreendedora trabalhou com comunicação em diferentes mercados e acompanhou de perto a visão que grandes empresas tinham do público feminino. “As mulheres eram colocadas numa caixinha, e não conseguia compactuar com isso”, conta ela.

Essa insatisfação fez Maíra se juntar à Juliana de Faria e Nana Lima no Think Olga, que começou como um blog, em 2013. “Nós produzíamos conteúdos que não se encontravam nas revistas femininas”. Aos poucos, a plataforma se tornou muito maior e se transformou em  ONG, encabeçando projetos como o Olga Esporte Clube, dedicado a mulheres praticantes de esportes. Elas estavam empoderando e conscientizando mulheres, mas o problema era maior do que isso. Percebendo esse desafio, as empreendedoras e feministas criaram em 2015 uma irmã para a Olga: a Eva.

THINK-eva

Se a Think Olga incentiva as mulheres a reconhecerem o problema e a exigirem mudanças, a Think Eva trabalha o outro lado da moeda. “É uma via de mão dupla. Na Eva nós ajudamos, com inteligência sobre gênero, empresas e governos a terem uma comunicação mais respeitosa com a parcela feminina da sociedade. E essa comunicação acaba empoderando ainda mais mulheres.”

“O feminismo não é uma conveniência para fazer uma campanha fofinha. É um compromisso inegociável.”

Para mudar a forma que a comunicação para mulheres é feita por marcas e agências e dentro do mundo corporativo, a Think Eva atua em duas frentes: estratégia e educação. Na estratégia, a equipe atua como consultora, trazendo conhecimento sobre gênero e feminismo, e através de pesquisas e uma imersão no universo da corporação, ajuda a marca e redirecionar estratégias de comunicação interna ou externa, avaliando e enriquecendo campanhas. Além disso, com educação, a Eva instrumentaliza profissionais do mercado por meio de palestras, workshops e estudos, como o Compromisso Inegociável, estudo sobre o papel do feminismo lançado recentemente.

Think-Eva-compromisso-inegociavel

“Observamos grandes mudanças positivas no comportamento de marcas, em países como os Estados Unidos.  Houve empresa que distribuiu produtos de graça para imigrantes, por exemplo”, explica Maíra sobre a inspiração para o estudo. Ao mesmo tempo que as empreendedoras observavam essa tendência, viam no Brasil o ativismo crescente em defesa da igualdade de gêneros e do respeito à mulher, impulsionado principalmente pela internet. “Entendemos que, como alguém com profundo conhecimento sobre a causa, nós precisávamos nos pronunciar”. Para isso, elas uniram os conhecimentos da Eva sobre comunicação e empoderamento feminino aos insights de cinco especialistas, que foram entrevistadas sobre as origens e o cenário atual do feminismo.

Reports assim têm um efeito positivo imediato para algumas empresas, mas, para outras, o efeito é mais lento: “É um processo de tomada de consciência”, comenta Maíra, “não é uma mudança que acontece do dia pra noite”. Segundo ela, muitas marcas trabalham a comunicação sem enxergar o cliente como pessoa. “Não é por má intenção, é por desinformação mesmo. E é por isso que a Eva existe”, conclui a empreendedora.

“As empreendedoras têm nas mãos o poder de melhorar a vida das mulheres.”

Segundo Maíra, o Brasil ainda carece de bons exemplos de marcas que se posicionam com profundidade, mas quem começa um negócio e uma cultura organizacional do zero está em vantagem nesse cenário. “Busque conhecer esse universo mais a fundo. Você, como mulher, tem a responsabilidade com suas funcionárias em compreender  demandas específicas que elas podem ter. Para muitas delas, uma jornada de trabalho das 9h às 5h não funciona, por exemplo”, aconselha.

Ela ressalta que as empreendedoras ainda precisam quebrar outros paradigmas dentro e fora das empresas. “A gente esquece que nós também somos reprodutoras de pensamentos machistas inconscientemente”. É o que acontece com muitas líderes que acabam ficando isoladas em posições de liderança nas corporações e são julgadas, em vez de admiradas, pelas mulheres abaixo delas.

Para quebrar esses vícios, o conselho de Maíra é simples: busque inspiração em outras mulheres. “Para empreender em um mercado feito por homens e para homens é preciso ter coragem. Eu como mulher empreendedora sei o quão difícil isso é. E eu só consegui porque estava cercada de outras mulheres incríveis”.

E é para inspirar essa coragem em outras mulheres que ela, junto com suas sócias, segue lutando por um mercado e uma comunicação que sejam mais próximos das necessidades femininas. “Quero mostrar ao mundo do que as mulheres são capazes”, conclui Maíra.  

 

 

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