Resgatando a autoestima da mulher negra com a moda

Eu sei / Eu sou  /   / Por Aline Mello  /  Por
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A história da Michelle Fernandes, 33 anos, a Dona Krioula por trás dos acessórios afro da Boutique de Krioula e do canal de YouTube, não é aquela história clássica da moça humilde que sempre sonhou em empreender, nem tampouco daquela filha que via os pais empreendendo e acabou seguindo os passos da família. A Michelle empreendedora nasceu por acaso, quando percebeu que as tiras de tecido que amarravam seu cabelo todos os dias podiam se tornar um negócio, e passou a ensinar mulheres negras a testarem amarrações de turbantes para o cabelo.

Na época, ela tinha acabado de sair de um emprego como auxiliar administrativa em um escritório de arquitetura em que não tinha nenhum apoio para crescer. “Pensei que se eu trabalhasse para mim mesma poderia mostrar todo o meu potencial, mas não tinha verba nem ideia do que fazer”, relembra Michelle. Os turbantes, feitos em casa, já faziam parte da vida da empreendedora há algum tempo, e sempre chamavam a atenção de amigas e conhecidas, que perguntavam onde ela tinha comprado e como ela vestia. “A ideia de fazer alguns turbantes para vender foi do meu marido”, conta ela, que pegou os 150 reais que tinha na conta para comprar tecidos com estampas africanas e vender em uma página no Facebook.

“Empreender é muito difícil, especialmente quando você não vem de uma família que empreende e não aprendeu isso na escola.”

No começo era só para juntar algum dinheiro, mas o público da Boutique de Krioula começou a crescer e, quando Michelle percebeu, estava com uma empresa nas mãos. Ela e o marido Célio começaram a trabalhar full-time no negócio e foram aos poucos descobrindo as possibilidades de crescimento que ele tinha. Criaram uma linha de acessórios com a estética afro que os turbantes traziam, começaram a fazer workshops e a participar de feiras e eventos.

Aos poucos, foram se familiarizando com tudo que o empreendedorismo envolve, e a Michelle empreendedora cresceu junto com a Boutique de Krioula. “Aprendi 80% na prática. Fui conversando com outras pessoas, fazendo cursos na internet sobre e-commerce e marketing.  Ouvi minhas clientes para decidir para onde deveria seguir”, conta ela. Foi por meio dos feedbacks das clientes que Michelle também percebeu o efeito que seus produtos tinham na vida das pessoas.

“No começo eu não tinha a visão de que estava empoderando outras mulheres, mas com o tempo comecei a perceber que o que estava fazendo ía além de vender turbantes.”

A escolha dos turbantes, quando a empreendedora começou a vender tiras de tecido no Facebook, não foi por acaso: “O turbante é um resgate da cultura africana que foi perdida no período da escravidão no Brasil”, explica Michelle. “Quando a mulher veste um, não está só enrolando um lenço no cabelo, ela está se coroando como os reis e rainhas que usavam turbantes nas tribos africanas”, afirma ela. Essa mensagem de valorização da cultura afro-brasileira empoderou outras mulheres.

Michelle também começou a perceber que o que vendia ia muito além de acessórios. “Uma vez, durante uma feira, uma cliente me abordou e disse: ‘Você me inspirou a usar o cabelo natural’”, relembra, orgulhosa. “Hoje eu sei que quando uma mulher me olha ela vê uma pessoa totalmente fora dos padrões. Sou negra, não sou magra e empreendi fazendo aquilo que eu amo”, afirma ela, que já ouviu que outras mulheres se inspiraram nela para empreender. “Quando eu recebo esses retornos, percebo que estou no caminho certo. Minhas clientes me fortalecem e eu pego essa força para empoderar outras mulheres”.

A força que, no começo, ela nem imaginava que tinha, é o que move os próximos planos da Boutique de Krioula. Michelle e o marido pretendem abrir um espaço físico para receber clientes e ajudá-las a fortalecerem a autoestima com workshops e encontros.. E esse plano vai sair do papel graças ao prêmio que esta jovem empreendedora recebeu do Mulheres Seguras, depois de conquistar o primeiro lugar no concurso do nosso grupo do LinkedIn, em parceria com o Plano Feminino.

Conquistar o investimento foi também um fomento para a autoestima da própria Michelle. “A gente sempre lê essas coisas de pitch e financiamento e pensa que não tem chance.  Ganhar o prêmio me fez ver que estava madura no meu negócio e que precisava acreditar mais no meu potencial”, conclui realizada. Afinal, o que começou com 150 reais em tecidos, hoje empodera centenas de rainhas que Michelle ajudou a coroar.

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