Uma pequena história sobre os erros

Desenvolvimento Pessoal, Equilíbrio e Bem-estar  /   / Por Mulheres Seguras
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Quando eu era pequena, um dos meus programas favoritos era ir à sorveteria. Em uma das inúmeras vezes que meus pais me levaram a uma, eu resolvi pedir “um sorvete que tem todos os sabores em um só”. Sem saber do que se tratava, eles solicitaram aos atendentes várias bolas de diversos sabores. Mas não era isso que eu queria e, como forma de protesto, me joguei no chão e comecei a chorar. Chorei tanto que meus pais contam esse episódio até hoje.

Eu tinha quatro anos e era uma criança terrível. Acho que na época eu ainda não sabia que adultos eram apenas seres humanos que não tinham respostas para tudo. Na verdade, parece que essa lição é algo que pouca gente sabe.

Isso porque aprendemos que ser bem-sucedido é sinônimo de não cometer erros. Pelo menos é o que explica Kathryn Schulz, uma wrongologist, ou – em boa tradução livre – uma especialista em erros. De acordo com ela, quando vemos alguém tirar nota baixa na escola, pensamos de cara que ele é preguiçoso e que não estuda. Afinal, um bom aluno é aquele que vai bem em todas as matérias.

Parece que levamos isso para todos os âmbitos da nossa vida. Ao entrar em portais sobre negócios, vemos com frequência matérias com dicas “para evitar erros”, mas é bem difícil ler algo sobre a importância de se conviver bem com eles. Claro, ser prudente é muito importante, mas será que eliminar os erros da sua vida é mesmo a solução?

O cientista da computação Josh Sullivan provou que, às vezes, pensar “errado” pode ser a melhor escolha. Em um artigo no Harvard Business Review, ele conta que conseguiu desvendar esquemas de fraude financeira fazendo justamente as perguntas erradas. Depois de meses fazendo ao sistema de dados as perguntas que achava mais cabíveis, começou a perguntar exatamente o contrário do que achava certo. O resultado foi uma descoberta que fez seu cliente economizar um bilhão de dólares evitando golpes.

Como o cientista, muitas vezes demoramos para perceber que estamos fazendo algo errado. No caso de Sullivan foram meses; dos meus pais, dias; e tem gente que demora uma vida toda. É o que Kathryn chama, em seu Ted Talk, de “Efeito Coiote”. Lembra aquele desenho onde o coiote corre atrás do papa-léguas, passa por um penhasco, e continua correndo no ar? Ele só cai quando olha para baixo e vê que não está mais em terra firme, ou seja: a sensação de estar errado só acontece quando percebemos que fizemos algo incorreto. Nesse cenário, muita gente vive com a falsa impressão de ser o dono da razão, e sobra pouco espaço para os que admitem ou reconhecem os passos malsucedidos.

Quando chega a nossa vez de aceitar que talvez aquela ideia de negócio não tenha sido a melhor, ou que de fato deveríamos ter contratado alguém para cuidar das finanças da empresa, interpretamos isso como um fracasso. Em meio a nossa busca pela perfeição, esquecemos que errar faz parte do caminho de todo mundo, dos nossos amigos às pessoas que admiramos. E que existem duas formas de lidar com isso: nos deixando abalar, ou aprendendo com aquilo.

Em português, a capacidade de lidar e superar as falhas é chamada de resiliência, e em inglês, tenacity. Para entender a importância dela no mundo dos negócios, pense que você é uma investidora e precisa escolher entre duas ideias incríveis. Uma delas vai ser executada por alguém que nunca teve seu próprio negócio, e a outra por quem já teve uma empresa, mas que não deu muito certo. No primeiro momento, investir em alguém que já faliu uma empresa pode parecer arriscado, mas já parou para pensar que, na verdade, essa pessoa tem mais experiência e capacidade de superação? A maioria dos investidores pensa justamente assim.

Tentar eliminar os enganos da sua vida não é a solução, simplesmente porque é uma opção impossível. Segundo o psicanalista Jean-Pierre Lebrun, o segredo é aprender a lidar com o fracasso. Como não podemos fugir dele, pelo menos temos que tentar chegar a uma convivência pacífica. Lebrun, inclusive, defende que desde cedo as crianças sejam ensinadas a falhar.

Às vezes fazemos escolhas erradas, ou fazemos escolhas certas e execuções desastrosas, ou apenas não entendemos que “aquele sorvete que tem todos os sabores em um só” é o napolitano: com creme, morango e chocolate. E mesmo assim, acredite: os erros são ótimos. Principalmente, depois que você sobrevive a eles.

Para você ficar mais segura:

Vídeo: On being wrong (com legendas) –  Kathryn Schulz

Livro: Sem medo de errar: as vantagens de estar enganadoAlina Tugend

Artigo: The 7 Traits of Successful Entrepreneurs – Entrepreneur

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